Cover image for Lenon B's reflection on creating art in a world in crisis

Criar num mundo em crise: luxo ou necessidade?

Na última feira de arte em que participei, havia uma constatação na boca de todos: o mercado da arte está a atravessar um período complicado. Entre incertezas políticas, instabilidade económica e uma sociedade de consumo ultrarrápida, a arte é hoje muitas vezes vista como um luxo não essencial. Em muitos lares, já não tem lugar entre as despesas consideradas «úteis». E, no entanto…

Quando o mundo se retrai, a arte desaparece, ou resiste

A tendência geral é clara: consome-se depressa, deita-se fora, passa-se a outra coisa. O efémero reina. A obra de arte, essa, exige tempo para ser observada, sentida, compreendida: vai contra a corrente. E numa época dominada pelo stress coletivo, pela instabilidade e pela dúvida, a compra de uma obra é muitas vezes adiada para «mais tarde». Mas esse «mais tarde» repete-se, e por vezes nunca chega.

Contudo, mesmo que a arte não cure uma crise, pode ajudar a atravessá-la. Ilumina. Liga. Acalma. Questiona. E muitas vezes diz o que as palavras já não conseguem exprimir.

O artista: farol discreto ou voz marginalizada?

Neste contexto, qual é o lugar do artista? Criar apesar de tudo é por vezes vivido como um ato de resistência suave. É preciso continuar a propor sentido, poesia, luz, mesmo que o eco não venha logo.

Mas a realidade económica está lá, implacável. Não, não criamos para enriquecer. Mas sim, é preciso viver. Comprar materiais, pagar o atelier, suportar deslocações, exposições, site, impressões, comunicação… O artista que não vende, ou vende pouco, vive uma tensão dolorosa: continuar a alimentar uma vocação, enquanto sustenta com esforço uma atividade que por vezes luta para existir no espaço público.

E então, como fazemos? Adaptamo-nos. Diversificamos. E muitas vezes duvidamos. Mas continuamos, porque criar não é uma escolha, é uma necessidade.

Um paradoxo do mercado: o hiper-luxo com fins fiscais

Outro paradoxo: enquanto muitos artistas lutam para vender uma única tela, outro lado do mercado prospera. Obras muito caras, compradas por empresas ou colecionadores através de mecanismos de leasing ou de benefícios fiscais, alimentam uma forma de especulação artística.

O problema não está na fiscalidade em si: pode até ser uma alavanca positiva. Mas surge uma questão essencial:

O que leva realmente à compra de uma obra? A emoção sentida diante de uma criação… ou a promessa de um benefício fiscal?

Quando a arte se torna um valor-refúgio, um produto de investimento ou uma alavanca financeira, o que resta do impulso original do artista, e desse laço frágil e sensível entre uma obra e quem a contempla?

E se a arte fosse… vital?

Apesar de tudo, continuo convencida de uma coisa: a arte é uma necessidade silenciosa. Não salva uma economia. Não alimenta uma família. Mas alimenta a alma. E num mundo em sobressalto, onde por vezes perdemos as referências, é um dos raros espaços onde a beleza, a lentidão e a profundidade ainda têm lugar.

Criar num mundo em crise não é um luxo, é um ato de fé. Fé no ser humano. Fé na capacidade que uma obra, pequena ou grande, modesta ou magistral, tem de tocar, revelar, despertar.

Por isso, continuo. E sei que não estou sozinha.

Esta necessidade de lentidão e de profundidade nunca me deixou; é também por isso que, mais tarde, escolhi abrandar para vos conhecer melhor. E para verem o que continuo a criar, o meu catálogo interativo está sempre aberto.

Receber as minhas próximas reflexões

Com todo o meu carinho,

Lenon B

Pintora contemporânea, Ericeira, Portugal

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